quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Cartorário diz que preparou escrituras de venda de sítio a Lula

João Pedroso Campos, Veja


Segundo João Rizzi, Roberto Teixeira pediu que minutas fossem feitas. Uma delas, de 2012, é no valor R$ 800 mil; outras duas, de 2016, no de R$ 1,6 milhão


Em depoimento como testemunha de acusação no processo da Operação Lava Jato referente ao sítio Santa Bárbara, em Atibaia (SP), que tem entre os réus o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o escrevente cartorário João Nicola Rizziconfirmou ao juiz federal Sergio Moro que preparou minutas de escritura em que o petista e sua falecida mulher, Marisa Letícia Lula da Silva, figurariam como compradores da propriedade. Em depoimentos durante a investigação, Rizzi já havia tratado do assunto.
Conforme um dos documentos, datado de 2012 e apreendido no apartamento de Lula em São Bernardo do Campo, a venda do sítio seria feita ao ex-presidente e Marisa, por 800.000 reais, pelo empresário Fernando Bittar, ex-sócio de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do casal. Segundo o cartorário, a minuta de escritura foi elaborada por ele no 23º Tabelionato de Notas a pedido do advogado Roberto Teixeira, compadre do petista (veja aqui o documento).
Rizzi relatou prestar serviços com frequência a Teixeira, que é especializado em direito imobiliário, e que foi ele quem produziu a escritura do sítio Santa Bárbara quando Bittar e Jonas Suassuna, também próximo a Lulinha, compraram a propriedade, em 2010.
Ainda conforme João Nicola Rizzi, ele voltou a preparar duas minutas de venda do sítio em 2016, também a pedido de Roberto Teixeira. Em um deles, figuravam como vendedores de “um quinhão de terras” do sítio Bittar e sua esposa, Lilian, em uma transação no valor de 1.049.500 reais (veja aqui o documento). Na outra minuta de escritura, no valor de 662.150 reais, o vendedor de outro “quinhão de terras” na propriedade seria Suassuna (veja aqui o documento). Em ambas, os nomes dos compradores estão em branco.
Segundo o depoimento de Rizzi, contudo, Teixeira lhe disse que os espaços seriam preenchidos com os nomes de Lula ou de Marisa Letícia. O compadre do ex-presidente ainda teria orientado o cartorário a lhe entregar os documentos pessoalmente, e não enviá-los por e-mail, como era de costume. Nenhuma das minutas produzidas pelo escrevente foram formalizadas e, portanto, o imóvel nunca esteve no nome do petista.

O processo

Segundo a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), que baseia o processo sobre o sítio de Atibaia, as empreiteiras participaram de um “consórcio” que construiu benfeitorias na propriedade, equipada com piscina, churrasqueira, campo de futebol e um lago de peixes, ao custo de 1 milhão de reais. O dinheiro, sustentam os procuradores, foi destinado a Lula como propina de contratos da Petrobras.
A parte da Odebrecht nas propinas teria vindo de 128 milhões de reais de vantagens indevidas em quatro contratos com a Petrobras. No caso da OAS, o dinheiro teria sido contabilizado em vantagens indevidas de 27 milhões de reais pagas sobre três contratos. As duas empreiteiras teriam pago, juntas, 870.000 reais das obras.
A suposta “contribuição” da Schahin às obras no sítio no interior paulista, de 150.500 reais teria sido repassada por meio do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula, e retirada de propinas pagas pela empreiteira no contrato de operação, pela empreiteira, do navio-sonda Vitória 10.000, da Petrobras.
Além de Lula, Rogério Aurélio Pimentel e Fernando Bittar, respondem à ação penal o pecuarista José Carlos Bumlai, os empreiteiros José Adelmário Pinheiro Filho, conhecido como Léo Pinheiro, Marcelo Odebrecht e Emílio Odebrecht, o ex-executivo da OAS Agenor Franklin Magalhães Medeiros, os ex-executivos da Odebrecht Alexandrino Alencar, Carlos Armando Guedes Paschoal e Emyr Diniz Costa Júnior, o ex-engenheiro da OAS Paulo Roberto Valente Gordilho e o advogado Roberto Teixeira.
Segundo Léo Pinheiro, Lula pediu a ele que cuidasse da reforma do “seu” sítio em Atibaia. A propriedade está registrada em nome de um sócio de Fábio Luís da Silva, filho do ex-presidente

STJ torna ex-ministro Mário Negromonte réu na Lava Jato. O indigitado foi auxiliar de Dilma 'trambique', a vigarista 'honrada'. Mas, fundamentalmente, integra a organização criminosa do Lula

Com Veja e Agência Brasil



A Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu nesta quinta-feira (21), por unanimidade, aceitar denúncia contra o ex-ministro das Cidades Mário Negromonte (PP-BA). Dessa forma, ele passa à condição de réu na operação Lava Jato. Na denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) em outubro de 2017, Negromonte é acusado de receber, enquanto chefiava a pasta, R$ 25 milhões em propina para beneficiar empresas do setor de rastreamento de veículos.
A acusação teve como ponto de partida a delação premiada do doleiro Alberto Youssef e foi encaminhada ao STJ por Negromonte ocupar o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia. A Corte Especial, colegiado do STJ responsável por julgar casos do tipo, decidiu também afastá-lo da função até que a fase de instrução penal do processo esteja concluída.
Segundo o MPF, os colaboradores Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, afirmaram que, além das indicações para cargos de diretoria na estatal, o Partido Progressista (ao qual Negromonte era filiado desde 2003) também foi beneficiado pelo esquema instalado no Ministério das Cidades — e que teria Youssef como operador da movimentação financeira entre as partes.
À época em que foi convidado para assumir a pasta das Cidades no Executivo, Negromonte era o líder do PP na Câmara dos Deputados. A defesa de Negromonte alegou, no processo no STJ, que não havia razão para a abertura da ação penal, já que não existiriam elementos suficientes para a demonstração da suposta prática criminosa. A defesa também alegou que os depoimentos colhidos pelo MPF, por serem colaboração premiada, não poderiam se constituir no único fundamento de uma eventual condenação.
O relator da ação penal, ministro Luis Felipe Salomão, entendeu que os elementos apresentados pelo MPF – como relatórios de viagens dos investigados e os termos de colaboração – são suficientes para o recebimento da denúncia, “ressalvando, de forma objetiva, que essa conclusão não implica convencimento definitivo da prática de delito por parte do denunciado”.
Em relação ao afastamento do conselheiro, Salomão destacou que, ainda que os fatos descritos na denúncia sejam anteriores ao exercício do cargo no TCM da Bahia, as práticas imputadas ao ex-ministro são incompatíveis com o cargo que ocupa. A Corte Especial também proibiu que Negromonte tenha acesso às dependências do órgão ou mantenha contato com servidores, exceto para serviços de saúde.

Carlos Alberto Sardenberg: "Tarefa: cortar gastos e ... elevar gastos"

O Globo

Desajuste das finanças do Rio somente será ultrapassado com reforma estrutural, começando pela da Previdência


Então ficamos assim: sai a reforma da Previdência, cujo objetivo é reduzir a despesa pública, e entra a intervenção federal no Rio, que, para funcionar, exige mais gastos com pessoal, equipamentos e logística.

E tem mais complicação: o gasto com as Forças Armadas é do governo federal, que está submetido a um teto de despesas. Ou seja, se for preciso aumentar o orçamento militar, inevitável, será preciso tirar dinheiro de algum outro item.

O gasto com policiais e equipamentos — viaturas, por exemplo — é do governo estadual do Rio. Ora, o estado já gasta com pessoal mais de 60% da receita líquida, acima, portanto, da regra que determina um teto de 49%. De novo, um governo que já gasta excessivamente com pessoal precisa contratar pessoal.

O exemplo desse desajuste é forte. A Polícia Civil fluminense tem orçamento para gastar neste ano um total de R$ 1,8 bilhão, sendo 92% para pessoal e encargos. Na Polícia Militar, a despesa autorizada é de R$ 5 bilhões, sendo 87% para pessoal e encargos.
Nessa rubrica pessoal, a maior parte vai para aposentadorias e pensões. Para ficar na PM, para cada coronel na ativa há cinco aposentados, a maioria na faixa dos 50 anos.

Por aí se vê: o desajuste das finanças do Rio somente será ultrapassado com uma reforma estrutural, começando pela da Previdência. Só que isso caiu por causa da intervenção federal, que, por óbvio, está limitada pela carência financeira.

Acrescentemos mais um ingrediente: a intervenção na segurança pública é, mais do que necessária, inevitável, dada a falência do governo estadual. Embora não seja lá essas coisas e também esteja no vermelho, o governo federal ainda dispõe de mais capacidade administrativa e financeira. Portanto, intervir foi uma decisão política correta e que atende aos interesses da população do Rio.

Isso mostra o tamanho e a complexidade do problema: o setor público, em todos os níveis, gasta demais — e não fornece os serviços adequados de segurança, saúde e educação, para ficar nas principais funções do Estado. Gasta demais com pessoal — e faltam funcionários em todas aquelas áreas.

A conclusão é inevitável: é preciso reduzir e aumentar o gasto público, tudo ao mesmo tempo. Demitir e contratar. Por isso, parece que todo mundo está convencido neste debate. Tem razão quem mostra a necessidade de uma severa redução de despesas. Também está cheio de razão quem nota que faltam policiais equipados (e médicos e professores etc.). Ocorre que quem fica em um só lado da história tem uma razão inútil.

Mas é possível cortar e aumentar despesa ao mesmo tempo? É necessário.

Como fazer? Um atalho é ganhar receitas. Mas não com o aumento de impostos, porque aqui está outra contradição. A carga tributária é elevada e não chega para o gasto.

Logo, uma saída é uma onda de privatizações — com as quais o Estado pode fazer caixa, eliminar desperdícios, atrair investimentos e ganhar eficiência em serviços públicos. Até cadeias deveriam ser concedidas à iniciativa privada. A empresa privada administra, e o governo paga uma mensalidade, uma taxa de hospedagem por preso. Podem apostar: o governo gastaria menos assim do que ele mesmo administrando — e administrando tão mal como se verifica.

Privatizações e concessões têm essas múltiplas vantagens. Resultam em ganho de receita e diminuição de despesa. Mas tem que ser bem feita mesmo. Privatizar uma estrada ou um hospital ou um presídio e dizer que o concessionário não pode lucrar muito — isso é simplesmente ridículo.

O segundo ponto é cortar despesas que não afetam os setores da ponta. Atrasar a manutenção de viaturas ou de viadutos é economia suja. Mas é evidente que nas burocracias intermediárias tem gente sobrando e gente que trabalha pouco e produz nada — isso tanto nas estatais quanto na administração direta. E com os melhores salários. Há estatais e órgãos inúteis que só estão aí pela inércia.

O terceiro ponto é controlar a principal fonte de desequilíbrio financeiro estrutural. Ou seja, fazer a... reforma da Previdência.

Esse é o desafio político do momento: o surgimento de lideranças responsáveis e capazes de convencer o eleitor da necessidade daquelas múltiplas tarefas.

Desconfie dos que só apontam um lado da história. É enganação.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista



Renda dos mais ricos cresceu acima da inflação durante a crise

Maeli Prado
Em meio à crise dos últimos anos, a renda do segmento mais rico da população brasileira aumentou pelo menos mais de 2%, descontada a inflação do período, entre 2014 e 2016, mostram cálculos feitos pelo economista Sérgio Gobetti, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Os chamados "super ricos" são aqueles que ganham acima de 160 salários mínimos por mês.
Já a renda média dos contribuintes como um todo se reduziu em 3,3% no mesmo período, segundo o economista, que realizou as contas com base em dados da Receita Federal.
De acordo com Gobetti, os dados ainda são preliminares, mas os números são um sinal de que a concentração de renda pode ter crescido durante o período de crise.
"Para ter uma medida do índice de Gini [indicador que mede a desigualdade de renda] é necessário olhar a Pnad [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios]. Independentemente disso, já é possível destacar que a renda dos muito ricos cresceu acima da inflação em uma época em que o PIB e a renda nacional caíram", disse.
Outro sintoma de que isso pode ter acontecido, de acordo com ele, é o fato de que a renda com aplicação financeira e lucros e dividendos aumentou em termos reais, enquanto os rendimentos tributáveis, como salários, caíram mais de 5% no período.

ALÍQUOTA MENOR

Os dados também mostram que os contribuintes mais ricos pagaram uma alíquota efetiva de IR (que leva em conta o imposto pago e a renda total) menor do que os contribuintes em geral.
Essa alíquota efetiva foi de 6% para esse grupo, enquanto a dos contribuintes que mais pagaram impostos, ou seja, que ganham entre 30 e 40 salários por mês, foi o dobro.
Isso acontece, segundo Gobetti, porque dois terços da renda dos mais ricos é isenta, já que provêm principalmente de lucros e dividendos.
"Os lucros e dividendos podem ser afetados pela crise, mas a distribuição permaneceu estável no período", diz o economista.
No Brasil, o lucro é tributado apenas quando é gerado.
As empresas pagam uma alíquota total de 34% sobre ele, e o restante, se for distribuído na forma de dividendos, é isento de imposto.
Em outros países, a tributação é dividida: as empresas recolhem parte do imposto e a outra parte quem recolhe é o indivíduo que recebe o lucro na forma de dividendos.
Na OCDE, órgão que reúne 35 países, só a Estônia não tributa o lucro embolsado por indivíduos. A alíquota média do imposto sobre o lucro é de 24% nas empresas e 24% no dividendo, mas a tendência é elevar a tributação de indivíduos e reduzir a das empresas.

'Estou candidato', diz Lula, o maior ladrão do Brasil, ao lançar pré-candidatura em BH. Só mesmo numa republiqueta de banana um larápio condenado se diz candidato a presidente da república. E pior, continua solto

Carolina Linhares
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na noite desta quarta-feira (21) que não respeita a decisão judicial que o condenou por corrupção e que pode impedir que ele dispute a Presidência.
"Eu não respeito a decisão que foi tomada contra mim porque sei que ela é mentirosa, política e não está baseada nos autos do processo."
"Estou candidato", disse em Belo Horizonte a militantes de esquerda reunidos no espaço de eventos Expominas. "Não tenho medo, podem até tentar me prender", completou.


Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com militantes 
em Belo Horizonte - Alexandre Rezende/Folhapress
O ato marcou o lançamento da candidatura do petista no Estado segundo a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), que ressaltou que o PT não tem plano B.
Sobre seus adversários políticos, Lula disse querer que eles "tenham vergonha na cara e respeitem a democracia e o resultado eleitoral como eu respeitei". O petista aparece em primeiro lugar nas intenções de voto.
"Quero dizer àqueles que querem evitar que eu seja candidato: tenham coragem. Eu perdi três eleições e voltei pra casa. [...] Aprendam a lamber suas feridas e permitam que a democracia vença e disputem as eleições comigo para ver quem é que ganha."
Lula voltou a dizer que as acusações de corrupção contra ele são mentiras criadas com o objetivo de tirá-lo da disputa eleitoral.
"Decidiram que era preciso anular a possibilidade de Lula ser candidato. [...] Parte do Judiciário, da Polícia Federal, do Ministério Público e da imprensa, liderada por Globo e "Veja", resolveram demonizar o PT", afirmou.
"Parte do Judiciário, da Polícia Federal, do Ministério Público e da imprensa, liderada por Globo e "Veja", resolveram demonizar o PT", afirmou.
"A imprensa vai transformando mentira em verdade. O que eles não sabem é que o povo me conhece. Duvido que tenham a consciência tranquila como eu tenho."
O petista não voltou a fazer críticas à intervenção militar determinada pelo presidente Michel Temer (MDB) no Rio de Janeiro.
Pela manhã, Lula havia dito que Temer está usando a intervenção para "se cacifar" para a eleição presidencial.
Nesta quarta o petista esteve em acampamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e em um antigo centro de tratamento da hanseníase na região metropolitana de BH.

ANIVERSÁRIO

O ato desta quarta também marcou a comemoração de 38 anos de fundação do PT.
Em seu discurso, Lula exaltou as políticas de quando esteve na Presidência e disse ter sofrido preconceito.
"Havia torcida para que eu fracassasse. [...] Resolvi enfrentar o preconceito sendo o melhor, marcando mais gols. Saí pela porta da frente", disse.
Estiveram presentes o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), além de deputados e dirigentes petistas. A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) chegou a ser anunciada, mas não compareceu.
Pimentel afirmou que "a ditadura sorrateiramente quer voltar" e atacou o Judiciário. O governador, que tenta a reeleição, responde a denúncias de corrupção no âmbito da Operação Acrônimo.
"Em vez de usar farda, usam togas de juízes arbitrários e parciais. Em vez de censura à imprensa, tornam a imprensa monopolizada", disse.
"Não me venha um juiz parcial com uma sentença fajuta dizer que Lula não pode ser candidato", completou.
Ele também criticou a intervenção militar no Rio, afirmando que ela "quebra o pacto federativo e a autonomia de Estados e municípios" e que seria um exemplo de como a ditadura está voltando.
Em dois momentos, Lula mencionou o senador Aécio Neves (PSDB-MG), inclusive para dizer que reeleger Pimentel seria continuar dando "lição de moral" ao tucano.
Gleisi criticou ainda o juiz Sergio Moro, responsável pela Operação Lava Jato em Curitiba, mencionando que ele recebe auxílio-moradia e disse haver uma perseguição contra Lula.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Brasil atinge pior posição em ranking de percepção da corrupção em 5 anos. Não poderia ser diferente, depois de anos de assalto pela dupla medonha Lula-Dilma

Aqui


"Eleição embolada na Itália: o condenado, o ultra, o ex-garçom", por Vilma Gryzinski

Veja


As semelhanças com o Brasil são evidentes, mas não devem ser exageradas. A Itália tem um sistema parlamentarista com partidos múltiplos e a eleição do próximo 4 de março tende, segundo aquelas pesquisas em que ninguém acredita mais, a produzir um resultado embolado.
O desgosto com a política de sempre é tanto que o candidato outsider, Luigi Di Maio, do Movimento Cinco Estrelas, já parece uma cara velha – embora tenha a maior preferência individual, com 28% dos votos.
A cara nova não tem grande novidade, exceto por ter saído do nicho da extrema-direita. É Matteo Salvini, da Liga do Norte.
O partido, criado como uma força política separatista com a plataforma de rachar a Itália do norte da Itália do sul, foi propulsionado pelo choque social e demográfico que a entrada em massa de africanos provocou no país.
Tornou-se um partido de apelo nacional, aliado a Silvio Berlusconi, o condenado de 81 anos que só pode participar do governo com um avatar. O que não o impede de fazer campanha com um tema que sempre foi seu.
Lembrete: Berlusconi foi condenado a três anos de prisão por corrupção, mas o crime já estava prescrito. A condenação que vale é a de sete anos, em serviços comunitários por causa da idade, por pagar para fazer sexo com uma prostituta de 17 anos, conhecida como Ruby Rouba Corações.
Replicado no gestual e do linguajar sem freios por um certo empresário americano com ambições políticas, Berlusconi quer recuperar o território local e o espaço mundial perdido para Donald Trump.
A última foi dizer que vai expulsar 600 mil africanos. Como? “Usando a polícia, os agentes da lei, o exército; todo mundo pode ajudar dizendo onde eles estão.”
Concordam com a proposta os outros integrantes da frente de direita, a Liga do Norte (que está pensando em tirar o norte do nome) e a Irmãos da Itália, um partido menor com origem no fascismo (a Itália é um dos poucos lugares em que a designação pode ser usada sem a desinformação e os exageros habituais).
A forte rejeição à imigração em massa nem de longe passou despercebida a Luigi Di Maio. O napolitano de 31 anos, que fez bicos como garçom, também é um candidato por procuração, pois o fundador do Cinco Estrela, o comediante Beppe Grillo, condenado por homicídio culposo num acidente de carro, é impedido de participar.
Apesar da facilidade com que assumiu uma posição importante na quase inescrutável política italiano, Di Maio nem de longe tem a retórica dura e pura de Salvini, um torcedor do Milan acostumado a andar cercado por jornalistas que o consideram a encarnação do mal.
Os confrontos verbais mais recentes aconteceram depois de uma sequência de crimes.Uma jovem de apenas 18 anos, Pamela Mastropietro, foi assassinada e esquartejada uma cidadezinha chamada Macerata.
A mala com com pedaços de corpo dela foi ligada a um traficante nigeriano. Pamela tinha escapado recentemente de um centro de recuperação de drogados.
“O que este verme ainda está fazendo aqui”, tuitou Matteo Salvini. Dias depois, um neonazista saiu atirando a esmo em africanos de Macerata. Fez a saudação fascista ao ser preso. Ele tinha sido candidato a vereador pela Liga do Norte.
Cercado de perguntas de repórteres que queriam estabelecer a conexão entre o “discurso do medo” e o ataque do atirador, Salvini respondeu atirando. “Talvez eu não fale italiano muito bem. Façam leitura labial: não é correto, justo ou humano, é criminoso agredir, espancar, ameaçar ou disparar contra pessoas na rua.
“Ponto, abre parágrafo.Frase número dois: a imigração descontrolada ajuda a paz social ou leva ao conflito social, ponto de interrogação. Frase número três: a imigração descontrolada, além de encher as cadeias, pode desencadear uma resposta violenta, embora nunca justificada.”
“Quero assumir o governo para controlar a imigração.”
“E para fechar as mesquitas?”, pergunta um repórter.
“E para fechar mesquitas ilegais. Quero saber quem as financia e quem está por trás delas, de onde vem o dinheiro, quem prega e o que prega.”
Ainda durante a campanha presidencial americana, Salvini foi recebido pelo candidato Donald Trump para uma conversa de vinte minutos da qual saiu com o que queria. “Você vai ser primeiro-ministro da Itália”, disse Trump.
Salvini, que já se fantasiou de rei mago para o presépio na escolinha da filha caçula (a comemoração natalina é contestada até na Itália), usava na lapela um broche com a efígie de Alberto da Giussano.
O personagem histórico foi um dos comandantes da Liga Lombarda nas batalhas contra as campanhas de conquista de Frederico Barba Ruiva, do Sacro Império Romano-Germânico.
Apesar de vitórias gloriosas, Frederico acabou conquistando várias cidades italianas. Milão se rendeu em 1164, mas acabou não só destruída como perdeu as veneradas relíquias dos três reis magos (que de novo entram na história), levados para a Alemanha.
Presumivelmente, Salvini não entrou em detalhes na conversa com Trump sobre as lutas entre guelfos e guibelinos na Itália Medieval.
A Liga Lombarda “inspirou” a Liga do Norte. O partido separatista foi criado em 1984 com o nome de Liga Autonomista Lombarda. Já teve mais rachas quanto partidos de esquerda. Pela primeira vez tem a oportunidade real de ser a cabeça de uma coalizão que levaria Salvini ao governo.
“Os italianos se sentem tão abandonados pelo resto da Europa, tão vitimados – justificadamente ou não – por uma invasão demográfica, que estão se radicalizando”, diz Alexandre del Valle, pseudônimo do franco-italiano Marc d’Anna, comentarista conhecido pelas críticas ao fundamentalismo muçulmano.
“Dentro da direita clássica, vemos hoje um ‘Basta’ que se manifesta em visões radicais, extremistas e conspiracionistas.”
“A esquerda está se radicalizando no sentido oposto”, de abertura total do país aos estrangeiros, segundo analisa del Valle. “Como disse recentemente o prefeito de Palermo, Leoluca Orlando, ‘as fronteiras são um instrumento de tortura’”.
Organizações a favor da política de fronteiras abertas estão tratando a Itália como “um laboratório para seu projeto de inundação demográfica”, de acordo com um grande plano de “destruição da civilização europeia cristã”, diz ele.
Ideias grandiloquentes e exageradas são comuns em qualquer eleição, períodos em que os problemas das democracias entram em fase de manifestação aguda.
Mas no ambiente social e político atual da Itália, o condenado Berlusconi pode acabar sendo o homem chamado para apagar fogueiras. Se ainda tiver água na mangueira.